Este artigo dá sequência ao trabalho pioneiro de Vinícius Bar-
ros Leal, "Os Bezerra de Menezes: Origens", Fortaleza, edição do
autor, 1979. Outro crédito especial é dado a Luís Edgar de Andrade,
por suas recentes pesquisas em Portugal, facultando o acesso à obra
de Filgueiras Gaio, adiante referida. Comporta, ainda, uma home-
nagem aos estudiosos da família no Ceará, em especial António Be-
zerra de Menezes, o historiador, fundador do instituto, e suas filhas
Geórgia e Maria José; Antonio Theophilo Bezerra de Menezes e os
irmãos Murilo e Walder Bezerra de Sá, seus netos; D. Pompeu Be-
zerra Bessa, Raimundo Teles Pinheiro, Fernando Câmara, Francis-
co de Assis Arruda Furtado e o mestre maior da genealogia cearense,
Raimundo Girão. A lista de homenageados se completa com os dois
primeiros nomeados, Vinícius Barros Leal e Luís Edgar de Andrade.
O escopo do trabalho é sistematizar as informações contidas
nas fontes documentais e bibliográficas pesquisadas pelo autor. A
partir das referências indicadas, outros pesquisadores terão faci-
litados os seus estudos, seja no sentido de ampliar a compreensão
das origens da família, seja na correção de erros eventualmente
cometidos.
A base documental primária mais antiga que se tem de um
Bezerra em solo brasileiro é um depoimento prestado na vila de
Olinda, em 16 de maio de 1594, perante o Licenciado Heitor Furtado
de Mendonça, Visitador do Santo Ofício. O depoente apresentou-se à
Inquisição para denunciar um caso de blasfémia.
Ao iniciar seu depoimento, assim se qualificou:
"Domingos Bezerra... disse ser christão velho natural de Viana
foz de Lima filho de Antonio Martins da Boda e de sua mulher Maria
Martins Bezerra gente nobre defunctos de ydade de sessenta e oyto
annos, casado com Brazia Monteiro dos da governança desta terra e
que disse ser fidalgo de geração morador na sua fazenda da Várzea
freguesia de Nossa Senhora do Rosário..." (Mendonça, 1929: 271).
109
Page 2
Rpvista do Insl.il.ulo do Ceará - ¡994
No dia 1 de junho de 1594 foi chamada para depor, como teste-
munha de outro caso, a esposa de Domingos Bezerra. Ela se qualifi-
cou nos termos seguintes:
"Brazia Monteiro... disse ser christãa velha, natural desta Ca-
pitania casada com Domingos Bezerra dos da governança della, de
ydade de quarenta annos pouco mais ou menos moradora na sua fa-
zenda da Várzea" (Mendonça, 1929: 281).
O original manuscrito da Visitação do Santo Ofício às Partes
do Brasil permaneceu guardado na Torre do Tombo, em Lisboa, do
século XVI ao século XX. O grande historiador brasileiro Capistrano
de Abreu, cearense, obteve do historiador português J. Lúcio de Aze-
vedo, seu amigo pessoal, a intermediação necessária para obter có-
pia do documento. Antonio Baião, na época Diretor daquele princi-
pal arquivo português, reviu pessoalmente a cópia. Paulo Prado, tam-
bém amigo de Capistrano, patrocinou a publicação em São Paulo
(Mendonça, 1929: XXXIII).
O mesmo Domingos Bezerra aparece mencionado em outros
depoimentos de denunciantes ou de testemunhas, acerca de di-
versos eventos inquiridos pelo Visitador. Repetidas vezes ele é
designado pelo nome Domingos Bezerra o Velho (Mendonça, 1929:
77; 84; 273; 285). Sendo assim, deveria haver um segundo Domin-
gos, mais novo.
Em 1675, um filho deste e neto do primeiro ingressou na Ir-
mandade da Santa Casa de Misericórdia da Cidade de Olinda. O
assentamento à fi. 13 do livro de posse está assim redigido:
"Aos 27 de Janeiro de 1675 se assignou por irmão com termo
Cosme Bezerra Monteiro natural de Pernambuco, filho legitimo de
Domingos Bezerra de Barbuda e de Antonia Rodrigues Delgado; neto
por parte paterna de Domingos Bezerra de Barbuda e de Brazia
Monteiro, e por parte materna de Cosme Rodrigues e de Simoa da
Rosa; e casado com D. Leonarda Cavalcanti, filha de Antonio Caval-
cante de Albuquerque e de D. Margarida de Souza, todos desta terra"
(RlACP. 1866: 313).
O ingresso de irmãos na antiga Irmandade da Misericórdia de
Olinda foi objeto da palestra proferida pelo Major Salvador Henrique
de Albuquerque, 2o Secretário do Instituto Archeologico e Geographico
Pernambucano, na 48a sessão ordinária, realizada em 3 de agosto de
1865. A ata da sessão, publicada na Revista do Instituto, não repro-
duz o texto da palestra, mas transcreve 17 termos assinados por
novos irmãos, entre os quais o de Cosme Bezerra Monteiro.
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Fontes sobre as origens da Família Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
Os dados apresentados, procedentes de fontes primárias, ajudam
a entender melhor e a corrigir detalhes da "Nobiliarchia Pernambucana",
de Antonio José Victoriano Borges da Fonseca (1718-1786) (Fonseca,
1935). Esta constitui a mais extensa documentação genealógica organi-
zada no Nordeste colonial. Os manuscritos originais, compondo quatro
volumes, estiveram sob a guarda do Mosteiro de São Bento de Olinda
por mais de vim século. O exame do texto permite deduzir que o autor o
redigiu de 1748 a 1781, com eventuais interrupções. Há evidências de
adições posteriores, sem ser possível datá-las com exatidão. A pedido
do Barão de Studart, foi feita uma cópia em fins de 1891 e inicio de
1892. A publicação só veio a ocorrer em 1935, pela Biblioteca Nacional,
em dois volumes (Mello: 148-152; 161-163).
As quatro primeiras gerações de Bezerra, referidas nas fontes
primárias citadas, encontram-se na Nobiliarchia, com algumas alte-
rações nos nomes, porém com as identidades bem caracterizadas. E
importante observar as coincidências e diferenças, a serem objeto de
análise posterior. No Título de Bezerra Felpa de Barbuda consta:
"'1 A família de Bezerra Felpa de Barbuda é das mais ricas de
Pernambuco e nelle consta os mesmos annos que a sua po-
voação, porque procede de Antonio Bezerra Felpa de Bar-
buda, natural de Ponte de Lima, e de sua mulher Maria de
Araújo, que vieram a dita Capitania com o primeiro
donatário. Délies foi filho:
2 Domingos Bezerra Felpa de Barbuda, que do Livro Velho
da Sé consta que fallecerá a 18 de Outubro de 1607 e que
fora sepultado na dita igreja. Foi casado com Brazia
Monteiro, que do mesmo livro consta que havia fallecido a
12 de Outubro de 1606. Esta Brazia Monteiro foi filha de
Pantaleão Monteiro, primeiro Senhor do Engenho de S.
Pantaleão da Várzea do Capibaribe, a que ainda hoje cha-
mam engenho do Monteiro e de sua mulher Brazia Monteiro.
Nasceram desse matrimonio:
3 Domingos Bezerra Felpa de Barbuda, adeante" (Fonskca,
1935:1: 35).
"3 Domingos Bezerra Felpa de Barbuda casou com Antónia
Rodrigues Delgado, filha de Cosme Rodrigues e de sua mu-
lher Simôa da Rosa e foram seus filhos:
4 Cosme Bezerra Monteiro, que continua.
4 Simôa Bezerra, adeante".
Page 4
lievistti do Instituto do Ceará - 1991 ___
"4 Cosme Bezerra Monteiro, que ainda vivia em 1763 (sic) [erro
de cópia], como se vê do termo de Irmão da Misericórdia,
que assignou a 27 de Janeiro do dito anno; foi casado, como
consta do dito termo, com D. Leonarda Cavalcante de
Albuquerque, filha de Antonio Cavalcante d'Albuquerque,
o da guerra e de sua mulher D. Margarida de Sousa, em
título de Cerqueiras Cavalcante" (Fonseca: 1: 39).
De Simoa Bezerra, irmã de Cosme Bezerra Monteiro, proce-
dem os Bezerra de Menezes cearenses. Foi casada com Bento
Rodrigues da Costa, filho de Manoel Rodrigues e Mana Simões. Simoa
e Bento foram pais de Bento Rodrigues Bezerra, pernambucano, que
casou com Petronila Velho de Menezes, baiana, dando origem ao
sobrenome Bezerra de Menezes adotado pelas gerações seguintes
Dos filhos de Bento e Petronila quatro tornaram-se troncos da famí-
lia no Ceará: João Bezerra Monteiro (os descendentes deram prefe-
rência ao Bezerra de Menezes), no Cariri; Francisco e Jerónimo Be
zerra de Menezes, nos vales do Acaraú e do Aracatiaçu; Joana Be
zerra de Menezes, no vale do Jaguaribe, em particular o Riacho do
Sangue.
Para se conhecer as gerações de Portugal e da Galicia, a pri-
meira fonte é uma certidão obtida em Lisboa pelo Capitão Amaro
Bezerra. Declarando-se natural do Rio de S. Francisco, Capitania de
Pernambuco, requereu que se lhe passasse uma certidão de brasão
de armas, fidalguia e nobreza. A certidão foi feita por Joseph da Cruz
Paulino e subscrita por Joseph Duarte Colusedo, escrivão da nobre-
za, datada em 10 de julho de 1718. Dez anos depois* em 4 de novem-
bro de 1728, o Tenente Coronel Francisco Alves Camello requereu
ao Tabelião da Villa do Penedo, Rio de S. Francisco. Comarca de
Alagoas, Capitania de Pernambuco, o traslado desse documento.
Borges da Fonseca o transcreveu na íntegra na sua Nobiharchia
Pernambucana (Fonseca: II: 345-347) e por essa forma o seu conteú-
do foi preservado.
Fundamental, para a matéria em exame, é o trecho onde se
alinham os nomes dos antepassados galegos e portugueses dos Be-
zerra de Pernambuco. A ordem é inversa da comum, ou seja, segue
de filho para pai, avô, bisavô e demais gerações em linha ascenden-
te. O teor da certidão, nesse particular, está assim redigido:
"... e todos são descendentes de Martim Bezerra, Fidalgo do Rei-
no da Galisa, que por uma morte que fez passou a Portugal, consta
ser filho de Rodrigo Fernandes Bezerra, neto de Lopo Bezerra, bisne-
to de Fernão Bezerra de Moscoso, terceiro neto de Lopo Bezerra de
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Fontes sobre as origens da Familia Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
Muscoso, irmão de D. João Fernandes de Andeiro que foi conde de
Orem neste reino e governou como valido e primeiro ministro dos
Senhores reis D. Fernando e D. Leonor Telles. Quinto (sic) [quarto]
neto de Martim Bezerra de Moscoso. irmão de D. Nuno de Moscoso,
Arcebispo de Santiago g de D. Affonso de Moscoso. bispo de
Mondonhedo; quinto neto de Fernão Bezerra e de sua mulher D. Mai-
or Fernz. [Fernandes] de Moscoso, filha de Lopo Pires de Moscoso, de
quem procede a casa dos Condes de Altamira, grandes de Hespanha,
que é uma das principais daquella monarchia e é a família dos Bezer-
ras muito antiga e della fala o Conde D. Pedro de Barcellos. filho de
El-rei D. Deniz no seu Nobiliário, dos quais todos descendia elle
Supplicante e que sempre se trataram á lei de nobreza, sempre nelles
não houve raça de infesta nação" (Fonseca: II: 346).
O ''Nobiliário das Famílias de Portugal", de Manuel José da
Costa Fììgueiras Gaio (1750-1831) (Gaio, s.d.) apresenta um
referencial para cotejar os dados da certidão passada ao Capitão
Amaro Bezerra. Os registros se iniciam mencionando os ancestrais
mais recuados que o autor pôde identificar. Prossegue em linha des-
cendente, até encontrar a quarta geração da família no Brasil e ge-
rações contemporâneas em Portugal. Por serem numerosas as gera-
ções, os detalhes e as palavras abrevadas, seria longa uma transcri-
ção completa. Apresenta-se, apenas, a linhagem que chega a Cosme
Bezerra Monteiro. Recompondo as palavras abreviadas, mas respei-
tando a redação do autor, a síntese da sucessão assim se configura:
1. João Bezerra houve de D. Maria Rodrigues Codorniz filha
de Rodrigo Fernandes (Ruy, abreviado, no original)
Gonçallo Gomes Bezerra o Sordo.
Destes poderia passar algum a Castelã, e de lá tornarem a
passar a Portugal.
João Bezerra a que outros chamão Gonçallo Annes Bezerra
não sabemos de quem era filho cazou com D. Maria
Rodrigues Codorniz filha de Rodrigo Fernandes Codorniz.
Gonçallo Gomes Bezerra o Surdo
Gonçallo Gomes Bezerra filho de João Bezerra cazou com
(o Conde D. Pedro não trata dos ascendentes deste Gonçallo
Gonçalves Bezerra nem do seu Irmão Soeiro Gonçalves
Bezerra).
Gonçallo Gonçalves Bezerra
Soeiro Gonçalves Bezerra
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iuta do Instituto do Ceará - 1991
3. Soeiro Gonçalves Bezerra filho de Gonçallo Gomes diz o
Conde D. Pedro foi de mãos feitos e que seus filhos forão o
mesmo como elle e entregarão Castellos que tinhão na Bei-
ra sendo traidores, entregando-os ao Conde de Bolonha D.
Affonso quando veio por Governador não diz mais o Conde
D. Pedro mas nos dizem ter Fernão Bezerra" (Gaio, s.d.:
VII: 28).
"4. Fernão Bezerra filho de Soeiro Gonçalves Bezerra cazou
em Galiza e talvez lá se estabelese-se por ser traidor neste
Reino onde casou com D. Mayor Fernandes de Moscozo fi-
lha de Lopo Pires de Moscozo
D. Nuno de Moscozo Arcebispo de S. Thiago
D. Affonso Bispo de Mondonhedo
Martim Bezerra de Moscozo
5. Martim Bezerra de Moscozo filho de Fernão Bezerra cazou
com ... do Campo
Lopo Bezerra de Moscozo
D. Mayor Bezerra mulher de Fernão Sanchez de Moscozo
6. Lopo Bezerra de Moscozo filho de Martim Bezerra de
Moscozo não se nos diz se cazara só que teve Fernão Lopes
Bezerra
7. Fernão Lopes Bezerra filho de Lopo Bezerra igualmente se
não diz mais que teve Lopo Fernandes Bezerra
8. Lopo Fernandes Bezerra filho de Fernão Lopes igualmente
se nos não diz mais que teve Rodrigo a que outros chamão
D. Affonso Bezerra
9. Rodrigo Bezerra, ou D. Affonso Bezerra como dizem outro
filho de Lopo Fernandes Bezerra teve de Violante Moscozo
Martim Bezerra
10. Martim Bezerra filho de Rodrigo ou D. Affonso Bezerra.
Cazou com...
11. Antonio Pires Bezerra adiante no... que não seguimos que
teve segundo o Nobeliario de Turis
12. Domingos Nunes Bezerra (Gaio: VII: 29).
(3) Outros fazem estes filhos de Pedro Nunes a saber Fernão
Bezerra, Domingos Bezerra e D. Mecia Gonçalves filhos de
Antonio Pires Bezerra e netos de Martim Bezerra no prin-
cipio deste título o que não seguimos (Gaio: VII: 30).
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Fontes sobre as origens da Família Bezerra em Pernambuco. Portugal e Galicia
4. Domingos Bezerra filho de Pedro Nunes Bezerra que pas-
sou ao Brazil (Domingos Bezerra no Nobeliario de Turis se
diz filho de Antonio Pires Bezerra e neto de Martim Bezer-
ra) cazou com D. Brazia Monteiro filha de... Monteiro de
Monte Mor o velho) (Gaio: VII: 31).
5. Domingos Bezerra Monteiro filho de Domingos Bezerra
cazou com D. Antonia Rodrigues Delgado
6. Cosme Bezerra Monteiro
6. Cosme Bezerra Monteiro filho de Domingos Bezerra cazou
no Brazil com D. Bernardo [evidente erro de composição]
(Leonarda) Cavalcante filha de Antonio Cavalcante Mestre
de Campo e Governador no levantamento de Pernambuco...
(Gaio: VII: 32).
É importante notar que Felgueiras Gaio admite ser Pedro Nunes"
Bezerra o nome do pai de Domingos Bezerra, e não Antonio Pires
(sic) Bezerra. No entanto, registra a alternativa que ele rejeita e
indica a fonte. A alternativa por que optou não foi a correta. Não
obstante, o propósito de ser fiel às pesquisas que empreendeu o le-
vou a registrar a segunda alternativa, que se revela mais próxima
das fontes documentais primárias conhecidas e das fontes secundá-
rias preservadas no Brasil. Com efeito, salvo os detalhes de nomes, o
mencionado "Nobeliario de Turis" indica a sequência correta de ge-
ração entre Domingos, seu pai António e seu avô Martim Bezerra.
Por conseguinte, dispõe-se de outra fonte para cotejar a sequência
de gerações inserida na certidão passada em 1718 ao Capitão Amaro
Bezerra (Fonseca: II: 346).
Ouso levantar a hipótese de que o 'Tires" de Antonio Bezerra
foi erro de leitura paleogràfica. Poderá ter sido cometido pelo autor
da fonte consultada por Felgueiras Gaio, ou por ele próprio no ma-
nuscrito da sua obra. Consoante a formação de nomes em Portugal,
na época, o mais correto é que Antonio filho de Martim Bezerra vies-
se a se chamar Antonio Martins Bezerra.
Sobre Lopo Pires de Moscozo e Martim Bezerra de Moscozo,
referidos nos números-4 e 5 da lista de Felgueiras Gaio, o historia-
dor galego Vasco de Aponte faz menção a ambos, nomeando-os Lope
Pérez de Moscoso e Martin Bezerra de Canees (Aponte, 1986: 171),
citando sua fonte consultada, López Ferreiro, História, VII, 124, esta,
todavia, não disponível. Sobre a esposa de Martin, que aparece refe-
rida simplesmente "... do Campo", outro historiador galego, Garcia
Oro, registra que a família Moscoso se enlaçou com os burgueses
115
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Heriala do Instituto do Ceará - 199!
compostelanoe Do Campo (Garcia Oro, 1987:116: 265; 268-269). Per-
manece desconhecido o nome da esposa de Martin, mas fica
identificada a sua origem.
Nomes e eventos citados na certidão passada ao Capitão Amaro
Bezerra e no trabalho de Felgueiras Gaio são referendados em docu-
mentos antigos.
O "Livro do Deão", que forma uma das partes dos "Livros Ve-
lhos de Linhagens", escrito no século XIV, faz referência ao Bezerra
mais recuado da listagem de Felgueiras Gaio e às circunstâncias do
nascimento do filho:
"E o sobredito dom Rodrigo Fernandes Codorniz, irmão de dom
João Fernandes Batissela. foi casado com uma dona e fege nela
dona Maria Rodrigues Codorniz
E esta dona Maria Codorniz rouçou-a João Bezerra de casa de
dom Rodrigo Gomes, e fege nela Gonçalo Gomes, o Gordo" {PMH.
1980a: 206-207).
Pesquisador das famílias medievais portuguesas, o historiador
José Mattoso (Mattoso. 1985) levantou a ascendência de D. Rodrigo
Fernandes, o Codorniz. Foi filho de D. Fernando Aires de Lima, em
outros documentos D. Fernão Aires d'Anho Batissela, e de D. Teresa
Bermudes de Trava. Esta, filha de D. Bermudo Peres de Trava e de
D. Urraca Henriques de Portugal. D. Bermudo foi filho de D. Pedro
Peres de Trava e D. Teresa, irmã de D. Afonso Henriques, primeiro
rei de Portugal, filha do conde D. Henrique de Borgonha e de D.
Teresa de Leão e Castelã.
É importante observar que tanto em Felgueiras Gaio, como no
Livro do Deão e outras fontes antigas, os nomes aparecem com fre-
quência em forma abreviada, a exemplo de Ruy, Rui ou Roi para
Rodrigo, Frz para Fernandes etc. Nestes casos, as formas abrevia-
das foram colocadas na sua forma extensa, atual.
Anterior ao livro precedente, o "Livro de Linhagens" do Conde
D. Pedro de Barcelos (1280-1354), inclui um registro explícito à con-
duta reprovável de Soeiro Gonçalves Bezerra e seus filhos:
"E este Sueiro Bezerra houve filhos tam mãos como ele e tam
mãos feitos foram treedores. também o padre como os filhos, ca derom
peça de castelos na Beira, que tinham dei rei Dom Sancho, a que
haviam feita menagem por eles e deram-nos ao conde dom Afonso de
Bolonha, quando vinha por governador do regno per mandado do Papa"
(PMH, 1980b: II/2: 147).
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Fontes sobre as origens da Familia Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
Através da literatura trovadoresca contemporânea do evento,
que ocorreu por volta de 1247, identifica-se que Soeiro Bezerra en-
tregou o castelo de Monsanto e seu filho Rodrigo Bezerra (Roi, abre-
viado, na cantiga) o castelo de Trancoso. Trata-se de uma cantiga de
escárnio e mal dizer da autoria de Airas Peres Vuiturom, que se
acha no Cancioneiro da Biblioteca Nacional, N° 1478, e no Cancio-
neiro da Vaticana, N° 1088- Ambos, D. Pedro e Airas Peres, referem-
se a filhos, no plural. Quais os seus nomes e os respectivos castelos
de que eram alcaides, não há registro. Identifica-se apenas os dois
castelos anteriormente relacionados. Os versos que mencionam os
Bezerra são os seis primeiros e outros quatro no meio:
A lealdade dos Bezerra, que pela Beira muito anda;
bem habetur qu'antradenhamos; pois quando Papa manda
Nom tem Soeiro Bezerra que terr'é em vender Monsanto,
ca diz que nunca Deus diss[e] a Sam Pedro mais de tanto:
- Que tu legares em terra erit ligatum in celo.
Porém diz ca nom é torto de vender outro castelo!
Ofereceu Trancos[o] ao conde Roi Bezerro:
falou entom dom Soeiro, por sacar seu filho d'erro:
- Nom potest filius meus sine patre sue faceré quidquam,
Salvos som os traidores, pois bem isopados ficam.
(CP, 1961:67-69)
Um detalhe interessante no documento de 1718 é que Joseph
Duarte Colusedo, escrivão da nobreza, ao mandar Joseph da Cruz
Paulino fazer a certidão a ser passada ao Capitão Amaro Bezerra
seguramente orientou o escriturário para que parasse na geração
imediatamente anterior a Soeiro Gonçalves Bezerra. Não ficaria bem
para o destinatário dispor de um documento que por um lado o
nobilita, mas que por outro o faz descender de um traidor da pátria.
Ainda em relação ao mesmo documento cabe uma retificação.
O texto, ao referir-se a Lopo Bezerra de Moscoso, qualifica-o como
irmão de João Fernandes de Andeiro, Conde de Ourem. As evidênci-
as indicam que Lopo Bezerra foi cunhado da mulher de João
Fernandes de Andeiro. A Crónica do Rei Dom Fernando, de Fernão
Lopes, escrita no século XV, contém uma passagem com a seguinte
informação:
117
Page 10
Rci-ista do Instituto do Ceará - 199-1 ____
"Omde sabee, que Joham Fernamdez vivemdo na Crunha,
morreo Femara Bezerra, huum cavalleiro muito honrado de Galliza;
e sua raolher, a que ficara huum filho que chamavom Joham Bezerra,
casou com este Joham Fernamdez, que chamavom Damdeiro, posto
que não fosse igual pera casar com ella; e houve Joham Ferandez
della quatro filhas, e huum filho: ... Sua molher do comde avja nome
Dona Mayor, molher de prol, e de boom corpo" (Lopes, s.d.: 373-374).
No século XVI Duarte Nunes de Leão também escreveu uma
Crònica dos Reis de Portugal e ao tratar do reinado de D. Fernando,
assim se refere quanto ao casamento de João Fernandes de Andeiro:
'"Este homem (como staa dito atrás) era Gallego. & casou em
Galliza com huma Dona mui honrada, & de melhor sangue que elle,
que fora molhei1 de hum Fernão Bezerra, fidalgo principal, de que
loam Fernandez houue hum filho & quatro filhas" (Lkão, 1975: 384).
Pela configuração dos nomes, foram irmãos Fernão e Lopo Be-
zerra. Não há lógica em terem sido irmãos Lopo Bezerra e João
Fernandes de Andeiro. Presumivelmente, após o segundo casamen-
to da cunhada, a lógica aponta no sentido de que Lopo Bezerra a
tenha acompanhado a Portugal, mantendo relacionamento com João
Fernandes de Andeiro, protegido do rei D. Fernando e da rainha D.
Leonor. Somente assim se entende que a pessoa de João Fernandes
tenha sido associada à de Lopo e que a descendência deste tenha
vindo a fazer parte de um nobiliário português.
Para entender os fundamentos da declaração de Domingos Be-
zerra ao Visitador do Santo Ofício é essencial ter em conta que a
inclusão das duas primeiras gerações de Bezerra nos "Livros Velhos
de Linhagens" e das três primeiras no "Livro de Linhagens do Conde
D. Pedro" representam reconhecimento de origem nobre. Ademais, o
fato de Soeiro Gonçalves Bezerra ter sido alcaide de um castelo e de
outros filhos seus terem ocupado idênticas funções, dá suporte à evi-
dência indicada pelos citados hvros. Três gerações após, os registros
de Fernão Lopes e Duarte Nunes de Leão apontam no mesmo senti-
do. Não significa, entretanto, que fossem da alta nobreza. José
Mattoso, já citado, faz referência a linhagens secundárias e entre
estas inclui a família Bezerra (Mattoso, 1981: 298).
Em resumo, as gerações que partem da Galicia até alcançar as
duas primeiras de Bezerra em Pernambuco, podem ser esquema-
tizadas como adiante se apresenta:
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Fontes sobre as origens da Familia Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
D. Pedro Peres de Trava D. Henrique de Borgonha
c.c. D. Teresa de Leão e Castelã
pai de pais de
D. Berraudo Peres de Trava c.c. D. Urraca Henriques de
Portugal
pais de
D.Teresa Bermudes de Trava c.c. D. Fernão Aires d'Anno
Batissela
pais de
D. Rodrigo Fernandes, o Codorniz
pai de
João Bezerra e D. Maria Rodrigues Codorniz
pais de
Gonçalo Gomes Bezerra
pai de
Soeiro Gonçalves Bezerra
pai de
Fernão Bezerra
Lopo Peres de Moscoso
c.c. D. Mayor Fernandes de
Moscoso
pais de
9 Martin Bezerra de Moscoso
pai de
10 Lopo Bezerra de Moscoso
pai de
11 Fernão Lopes Bezerra
pai de
12 Lopo Fernandes Bezerra
pai de
13 Rodrigo Bezerra
pai de
14 Martini Bezerra e
pais de
Antonio Pires [Martins] Bezerra
15 = Antonio Martins de Barbuda
c.c. Maria Martins Bezerra
pais de
16 Domigos Bezerra de Barbuda
Por conseguinte, ao declarar em Olinda, no ano de 1594, pe-
rante o Visitador do Santo Ofício, Heitor Furtado de Mendonça,
que era fidalgo de geração, Domingos Bezerra afirmou o que reco-
nhecia como fato. Ele tinha consciência dos laços que o ligavam
aos antepassados.
Violante de Moscoso
Pantaleão Monteiro
c.c. Brasia Monteiro
pais de
c.c. Brasia Monteiro
119
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Reí-isla do Instituto do Cearei - 199-1
Para alcançar os troncos no Ceará, as gerações subsequentes,
partindo de Domingos e sua mulher, são:
16 Domingos Bezerra de Barbuda c.c. Brasia Monteiro
Cosme Rodrigues ce. Simoa da Rosa
pais de pais de
17 Domingos Bezerra de Barbuda ce. Antonia Rodrigues
Delgado
pais de
18 Cosme Bezerra Monteiro c.c. Leonarda Cavalcanti
18 e Simoa Bezerra c.c. Bento Rodrigues da Costa
Simoa e Bento pais de
19 Bento Rodrigues Bezerra c.c. Petronila Velho de Menezes
pais de
20 João Bezerra Monteiro Jerónimo Bezerra de Menezes
20 Francisco Bezerra de Menezes Joana Bezerra de Menezes
Concluindo: somando-se as 11 gerações de Bezerra de Menezes
no Ceará às 20 pesquisadas, são 31 no total. Marcam suas presenças
em 9 séculos de história, do século XI ao século XX.
Fontes Bibliográficas
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de Galicia. Santiago de Compostela, Xunta de Galicia, Conselleria
da Presidencia, Serviço Central de Publicaciones.
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Editora.
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Page 13
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M Airoso, José- 1981. A Nobreza Medieval Portuguesa: a família e o
poder. Lisboa, Editorial Estampa.
Mattoso, José. 1985. Ricos Homens, Infanções e Cavaleiros: a nobre-
za medieval portuguesa nos séculos XI e XII. Lisboa, Guimarães
Editores.
Mello, José Antonio Gonsalves de. 1986. A Nobiliarchia Pernam-
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Pernambuco, Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes/
FUNDARPE.
Mendonça, Heitor Furtado de. 1929. Primeira. Visitação do Santo
Ofício às Partes do Brasil Pelo licenciado Heitor Furtado de Men-
donça - Denunciações de Pernambuco 1593-1595. São Paulo, Sé-
rie Eduardo Prado, Para Melhor Conhecer o Brasil, Homenagem
de Paulo Prado.
PMH. 1980a. Portugaliae Monumenta Histórica, Livro do Deão, in
Livros Velhos de Linhagens. Lisboa, Publicações do II Centenário
da Academia das Ciências.
PMH. 1980b. Portugaliae Monumenta Histórica, Livro de Linhagens
do Conde D. Pedro. Lisboa, Publicações do II Centenário da Aca-
demia das Ciências.
RLAGP. 1866. Revista do Instituto Archeologico e Geographico Per-
nambucano. Recife.
Monday, December 7, 2009
Tuesday, December 1, 2009
Morrissey é o melhor letrista britânico, diz estudioso
Um acadêmico escocês lançou um livro em que afirma que o cantor Morrissey, ex-vocalista da banda The Smiths, é o maior letrista da história da música popular britânica.
Gavin Hopps, palestrante da Universidade St Andrews, é especialista em romantismo britânico e escreveu o livro Morrissey: The Pageant of His Bleeding Heart ("Morrissey: A encenação de seu Coração que Sangra", em tradução livre).
Hopps acredita que o trabalho de Morrissey pode ser comparado à obra de grandes nomes da literatura como Samuel Beckett e Oscar Wilde e também a grandes nomes da comédia britânica como Frankie Howerd e George Formby.
"O livro do acadêmico escocês explora todos os grandes assuntos das letras do compositor como amor, melancolia e alienação.
Hopps já escreveu vários ensaios sobre poesia e música pop.
Década de 80
Morrissey, cujo nome verdadeiro é Steven Patrick Morrissey, nasceu na cidade de Manchester em 1959.
Sua carreira musical começou na década de 70, mas foi apenas na década de 80, quando ele conheceu o guitarrista Johnny Marr, que o cantor e compositor começou a fazer sucesso.
Marr e Morrissey criaram a banda The Smiths juntamente com Mike Joyce e Andy Rourke e fizeram sucesso com músicas como Panic, Big Mouth Strikes Again, How Soon is Now? e The Boy With the Torn in His Side.
No final dos anos 80 a banda se separou e Morrissey iniciou sua carreira solo, produzindo seu primeiro álbum, Viva Hate. O cantor lançou seu trabalho mais recente, Years of Refusal, em fevereiro deste ano.
Gavin Hopps, palestrante da Universidade St Andrews, é especialista em romantismo britânico e escreveu o livro Morrissey: The Pageant of His Bleeding Heart ("Morrissey: A encenação de seu Coração que Sangra", em tradução livre).
Hopps acredita que o trabalho de Morrissey pode ser comparado à obra de grandes nomes da literatura como Samuel Beckett e Oscar Wilde e também a grandes nomes da comédia britânica como Frankie Howerd e George Formby.
"O livro do acadêmico escocês explora todos os grandes assuntos das letras do compositor como amor, melancolia e alienação.
Hopps já escreveu vários ensaios sobre poesia e música pop.
Década de 80
Morrissey, cujo nome verdadeiro é Steven Patrick Morrissey, nasceu na cidade de Manchester em 1959.
Sua carreira musical começou na década de 70, mas foi apenas na década de 80, quando ele conheceu o guitarrista Johnny Marr, que o cantor e compositor começou a fazer sucesso.
Marr e Morrissey criaram a banda The Smiths juntamente com Mike Joyce e Andy Rourke e fizeram sucesso com músicas como Panic, Big Mouth Strikes Again, How Soon is Now? e The Boy With the Torn in His Side.
No final dos anos 80 a banda se separou e Morrissey iniciou sua carreira solo, produzindo seu primeiro álbum, Viva Hate. O cantor lançou seu trabalho mais recente, Years of Refusal, em fevereiro deste ano.
Estudo britânico confirma propriedade analgésica de hortelã brasileira
Uma xícara de chá de um tipo de hortelã tem propriedades analgésicas equivalentes às de alguns remédios vendidos comercialmente, concluiu um estudo feito na Grã-Bretanha por uma pesquisadora brasileira.
Há séculos, a erva Hyptis crenata, conhecida como hortelã-brava e salva-de-marajó, vem sendo utilizada na medicina popular no Brasil para tratar desde dores de cabeça e estômago até febre e gripe.
Liderada pela brasileira Graciela Rocha, a equipe da Universidade de Newcastle, no nordeste da Inglaterra, fez estudos com ratos e provou que a prática popular tem base científica.
O estudo foi publicado na revista científica Acta Horticulturae.
Graciela Rocha está apresentando seu trabalho no International Symposium on Medicinal and Nutraceutical Plants em Nova Déli, na Índia.
Tradição
De forma a reproduzir os efeitos do tratamento da maneira mais precisa possível, a equipe fez uma pesquisa no Brasil para descobrir como a erva é preparada tradicionalmente e que quantidades devem ser ingeridas.
O método mais comum de uso é ferver a folha seca em água durante 30 minutos e deixar que o líquido esfrie entes de bebê-lo.
Os pesquisadores descobriram que quando a erva é ingerida em doses similares às indicadas na medicina popular, ela é tão efetiva em aliviar a dor como uma droga sintética, do tipo aspirina, chamada indometacina.
A equipe pretende agora iniciar testes clínicos para descobrir quão efetiva a erva é no alívio da dor em humanos.
"Desde que os homens começaram a andar na Terra, temos procurado plantas para curar nossas aflições", disse Graciela Rocha. "Na verdade, calcula-se que mais de 50 mil plantas sejam usadas no mundo com fins medicinais".
"Além disso, mais de a metade de todos os remédios vendidos com receita são baseados em uma molécula que ocorre naturalmente em alguma planta".
"O que fizemos foi pegar uma planta que é amplamente usada para tratar a dor com segurança e provar cientificamente que ela funciona tão bem como algumas drogas sintéticas", disse Rocha.
"O próximo passo é descobrir como e por que a planta funciona".
Sabor da Infância
Graciela disse que se lembra de ter tomado o chá como cura para todas as doenças da sua infância.
Ela disse: "O sabor não é o que a maioria das pessoas na Grã-Bretanha reconheceriam como hortelã".
"Na verdade, ela tem um gosto mais parecido com o da sálvia, que é uma outra erva da família das mentas".
"Não é muito gostoso, mas remédios não tem de ser gostosos, não é?"
A presidente da Chronic Pain Policy Coalition, entidade britânica que trabalha para combater a dor crônica, disse que a pesquisa é interessante.
"São necessários mais estudos para identificar a molécula envolvida, mas este é um estudo interessante sobre um possível novo analgésico para o futuro", disse Beverly Collett.
"Os efeitos de substâncias semelhantes à aspirina são conhecidos desde que os gregos, na Antiguidade, relataram o uso da casca do salgueiro para cortar a febre".
Há séculos, a erva Hyptis crenata, conhecida como hortelã-brava e salva-de-marajó, vem sendo utilizada na medicina popular no Brasil para tratar desde dores de cabeça e estômago até febre e gripe.
Liderada pela brasileira Graciela Rocha, a equipe da Universidade de Newcastle, no nordeste da Inglaterra, fez estudos com ratos e provou que a prática popular tem base científica.
O estudo foi publicado na revista científica Acta Horticulturae.
Graciela Rocha está apresentando seu trabalho no International Symposium on Medicinal and Nutraceutical Plants em Nova Déli, na Índia.
Tradição
De forma a reproduzir os efeitos do tratamento da maneira mais precisa possível, a equipe fez uma pesquisa no Brasil para descobrir como a erva é preparada tradicionalmente e que quantidades devem ser ingeridas.
O método mais comum de uso é ferver a folha seca em água durante 30 minutos e deixar que o líquido esfrie entes de bebê-lo.
Os pesquisadores descobriram que quando a erva é ingerida em doses similares às indicadas na medicina popular, ela é tão efetiva em aliviar a dor como uma droga sintética, do tipo aspirina, chamada indometacina.
A equipe pretende agora iniciar testes clínicos para descobrir quão efetiva a erva é no alívio da dor em humanos.
"Desde que os homens começaram a andar na Terra, temos procurado plantas para curar nossas aflições", disse Graciela Rocha. "Na verdade, calcula-se que mais de 50 mil plantas sejam usadas no mundo com fins medicinais".
"Além disso, mais de a metade de todos os remédios vendidos com receita são baseados em uma molécula que ocorre naturalmente em alguma planta".
"O que fizemos foi pegar uma planta que é amplamente usada para tratar a dor com segurança e provar cientificamente que ela funciona tão bem como algumas drogas sintéticas", disse Rocha.
"O próximo passo é descobrir como e por que a planta funciona".
Sabor da Infância
Graciela disse que se lembra de ter tomado o chá como cura para todas as doenças da sua infância.
Ela disse: "O sabor não é o que a maioria das pessoas na Grã-Bretanha reconheceriam como hortelã".
"Na verdade, ela tem um gosto mais parecido com o da sálvia, que é uma outra erva da família das mentas".
"Não é muito gostoso, mas remédios não tem de ser gostosos, não é?"
A presidente da Chronic Pain Policy Coalition, entidade britânica que trabalha para combater a dor crônica, disse que a pesquisa é interessante.
"São necessários mais estudos para identificar a molécula envolvida, mas este é um estudo interessante sobre um possível novo analgésico para o futuro", disse Beverly Collett.
"Os efeitos de substâncias semelhantes à aspirina são conhecidos desde que os gregos, na Antiguidade, relataram o uso da casca do salgueiro para cortar a febre".
Homem que recebeu olho biônico recupera parte da visão
Um britânico que perdeu a visão há 30 anos diz estar vendo "flashes de luz" após ter recebido um olho biônico há 11 meses.
Ron, de 73 anos, fez parte de uma cirurgia experimental realizada no Moorfields Eye Hospital, em Londres, que pretende ajudar pacientes que tenham ficado cegos devido a uma doença hereditária chamada de retinose pigmentosa.
O paciente diz que consegue ver "linhas brancas" nas ruas e diferenciar as cores de suas meias.
"Durante 30 anos eu não vi nada. Tudo era preto. Mas agora a luz começa a aparecer. Poder ver a luz de novo é algo maravilhoso", disse Ron, que não revelou seu sobrenome, em entrevista à BBC.
"Eu posso ver a diferença entre as meias brancas, cinzas e pretas. E minha ambição agora é sair em uma noite de céu limpo e poder ver a lua", disse.
Técnica
O Argus 2 'capta' imagens em tempo real através de uma câmera.
O olho biônico, conhecido como Argus 2, foi desenvolvido pela empresa americana Second Sight e usa uma câmera acoplada a um par de óculos para enviar imagens a 60 eletrodos implantados na retina do seu usuário.
Enquanto a câmera acoplada aos óculos captura as imagens, uma unidade de processamento - aproximadamente do tamanho de um pequeno computador de mão e acoplada a um cinto -, converte a informação visual em sinais elétricos.
Esses sinais são então enviados de volta aos óculos e também a um receptor embaixo da superfície da parte frontal do olho. Esse receptor, por sua vez, envia os sinais aos eletrodos na parte posterior do olho.
O cirurgião que realizou os implantes, Lyndon da Cruz, disse que os dois pacientes que receberam o olho estão começando a ter estímulos visuais.
Estamos muito satisfeitos diante dos progressos atingidos até agora", disse.
Os implantes estão funcionando bem até agora, mas como ainda temos dois anos de testes pela frente, estes são apenas os primeiros passos para determinar o sucesso da nova tecnologia".
Argus 2 poderá ser comercializado logo depois de feitos os testes, com custo estimado em US$ 30 mil (cerca de R$ 62,8 mil).
Ron, de 73 anos, fez parte de uma cirurgia experimental realizada no Moorfields Eye Hospital, em Londres, que pretende ajudar pacientes que tenham ficado cegos devido a uma doença hereditária chamada de retinose pigmentosa.
O paciente diz que consegue ver "linhas brancas" nas ruas e diferenciar as cores de suas meias.
"Durante 30 anos eu não vi nada. Tudo era preto. Mas agora a luz começa a aparecer. Poder ver a luz de novo é algo maravilhoso", disse Ron, que não revelou seu sobrenome, em entrevista à BBC.
"Eu posso ver a diferença entre as meias brancas, cinzas e pretas. E minha ambição agora é sair em uma noite de céu limpo e poder ver a lua", disse.
Técnica
O Argus 2 'capta' imagens em tempo real através de uma câmera.
O olho biônico, conhecido como Argus 2, foi desenvolvido pela empresa americana Second Sight e usa uma câmera acoplada a um par de óculos para enviar imagens a 60 eletrodos implantados na retina do seu usuário.
Enquanto a câmera acoplada aos óculos captura as imagens, uma unidade de processamento - aproximadamente do tamanho de um pequeno computador de mão e acoplada a um cinto -, converte a informação visual em sinais elétricos.
Esses sinais são então enviados de volta aos óculos e também a um receptor embaixo da superfície da parte frontal do olho. Esse receptor, por sua vez, envia os sinais aos eletrodos na parte posterior do olho.
O cirurgião que realizou os implantes, Lyndon da Cruz, disse que os dois pacientes que receberam o olho estão começando a ter estímulos visuais.
Estamos muito satisfeitos diante dos progressos atingidos até agora", disse.
Os implantes estão funcionando bem até agora, mas como ainda temos dois anos de testes pela frente, estes são apenas os primeiros passos para determinar o sucesso da nova tecnologia".
Argus 2 poderá ser comercializado logo depois de feitos os testes, com custo estimado em US$ 30 mil (cerca de R$ 62,8 mil).
Britânico volta a enxergar com uso de 'olho biônico' pioneiro
Um homem britânico que havia perdido a visão na juventude se tornou uma das primeiras pessoas do mundo a voltar a enxergar com o uso de um "olho biônico" desenvolvido nos Estados Unidos.
Peter Lane, de 51 anos, da cidade de Manchester, é uma das 32 pessoas que estão sendo submetidas uma experiência internacional com o equipamento.
Ele recebeu um implante de um receptor eletrônico, instalado dentro do globo ocular e ligado ao nervo óptico e a óculos especiais.
Uma câmera colocada nesses óculos capta a imagem e a envia a um processador portátil, que transforma a imagem em sinais eletrônicos enviados ao receptor. Este, por sua vez, envia impulsos até a retina e o nervo óptico, fazendo a pessoa finalmente enxergar.
'Pequenas palavras'
Lane, por enquanto, consegue apenas ler palavras pequenas em uma tela especial.
"É um começo", disse ele. "Os médicos vão me dar uma dessas telas para eu ler em casa, e espero um dia poder voltar a ler cartas sozinho."
"Além disso, quando saio, o equipamento me dá mais segurança e mais independência."
Lane começou a perder a visão por volta dos 20 anos por causa de uma retinite pigmentosa, uma doença degenerativa da retina com origem genética.
O "olho biônico" foi desenvolvido pela empresa americana Second Sight e está sendo testado por apenas 11 médicos de todo o mundo.
Os especialistas, no entanto, acreditam que inicialmente o aparelho será útil apenas para as pessoas vítimas da retinite pigmentosa.
Em março, outro paciente que ficou cego por causa de rinite pigmentosa, um britânico de 73 anos identificado apenas como Ron, disse ter começado a ver "flashes de luz" depois de ter sido submetido a um implante de um olho da Second Sight em um hospital em Londres.
Clique Leia mais: Homem que recebeu olho biônico recupera parte da visão
"Durante 30 anos eu não vi nada. Tudo era preto. Mas agora a luz começa a aparecer. Poder ver a luz de novo é algo maravilhoso", disse Ron, que não revelou seu sobrenome, em entrevista à BBC.
"Eu posso ver a diferença entre as meias brancas, cinzas e pretas. E minha ambição agora é sair em uma noite de céu limpo e poder ver a lua", disse.
Peter Lane, de 51 anos, da cidade de Manchester, é uma das 32 pessoas que estão sendo submetidas uma experiência internacional com o equipamento.
Ele recebeu um implante de um receptor eletrônico, instalado dentro do globo ocular e ligado ao nervo óptico e a óculos especiais.
Uma câmera colocada nesses óculos capta a imagem e a envia a um processador portátil, que transforma a imagem em sinais eletrônicos enviados ao receptor. Este, por sua vez, envia impulsos até a retina e o nervo óptico, fazendo a pessoa finalmente enxergar.
'Pequenas palavras'
Lane, por enquanto, consegue apenas ler palavras pequenas em uma tela especial.
"É um começo", disse ele. "Os médicos vão me dar uma dessas telas para eu ler em casa, e espero um dia poder voltar a ler cartas sozinho."
"Além disso, quando saio, o equipamento me dá mais segurança e mais independência."
Lane começou a perder a visão por volta dos 20 anos por causa de uma retinite pigmentosa, uma doença degenerativa da retina com origem genética.
O "olho biônico" foi desenvolvido pela empresa americana Second Sight e está sendo testado por apenas 11 médicos de todo o mundo.
Os especialistas, no entanto, acreditam que inicialmente o aparelho será útil apenas para as pessoas vítimas da retinite pigmentosa.
Em março, outro paciente que ficou cego por causa de rinite pigmentosa, um britânico de 73 anos identificado apenas como Ron, disse ter começado a ver "flashes de luz" depois de ter sido submetido a um implante de um olho da Second Sight em um hospital em Londres.
Clique Leia mais: Homem que recebeu olho biônico recupera parte da visão
"Durante 30 anos eu não vi nada. Tudo era preto. Mas agora a luz começa a aparecer. Poder ver a luz de novo é algo maravilhoso", disse Ron, que não revelou seu sobrenome, em entrevista à BBC.
"Eu posso ver a diferença entre as meias brancas, cinzas e pretas. E minha ambição agora é sair em uma noite de céu limpo e poder ver a lua", disse.
Americanos poluem em média quase 400 vezes mais que burundianos
O Burundi é um dos países com o menor índice de poluição per capita do planeta. Uma pessoa nos Estados Unidos polui o planeta quase 400 vezes mais do que um burundiano, segundo dados do governo americano.
Em média, cada americano emite 19,78 toneladas de metro cúbico de CO2 por ano, de acordo com estatísticas da agência americana de energia Energy Information Administration. No Burundi, a emissão per capita anual é de apenas 0,05 toneladas.
Alguns fatores explicam porque o índice de emissões de CO2 é tão baixo no país. Em primeiro lugar, o Burundi ainda é um país essencialmente rural, com baixa atividade industrial. Em segundo lugar, o consumo de bens e comidas no país é baixíssimo, já que o Burundi é um dos países mais pobres do planeta.
O terceiro fator é uma certa distorção nos dados de emissões de CO2, que não levam em conta o desmatamento, um problema cada vez mais comum no país.
País rural
Com população total de 8,7 milhões de pessoas, o Burundi ainda é essencialmente um país rural. Menos de 4% da população total do país vive em Bujumbura, a capital e maior cidade. Apenas 10% das pessoas vivem em meios urbanos, onde estão concentradas as poucas indústrias do país.
A grande maioria dos burundianos vive no campo. Mais de 90% das pessoas vivem da agricultura de subsistência, plantando os alimentos que comem e vendendo o pequeno excedente em mercados e nas ruas. Com exceção de algumas grandes plantações de chá e café no norte do país, que respondem quase que exclusivamente pelas exportações do Burundi, todo o país funciona à base da agricultura de subsistência.
O resultado disso é que os alimentos são baratos e geram pouco CO2 no ambiente. Os agricultores plantam os alimentos para consumo próprio em terras alugadas. O excedente dos alimentos é vendido para o dono da terra, em pequenos mercados de rua ou de porta em porta na capital.
Burundi é o país com a menor renda per capita do mundo
Durante o dia, as ruas de cidades como Bujumbura são tomadas por vendedores ambulantes de alimentos diversos como ovos, bananas e mangas. O transporte do alimento até o consumidor final também é ecológico, já que os ambulantes andam a pé ou de bicicleta.
Também não há emissão de CO2 por estocagem de alimentos em frigoríficos. Os burundianos praticamente só consomem frutas e verduras da estação a preços baixos. Uma manga vendida no outono, por exemplo, custa cerca de US$ 0,20. Nos Estados Unidos, o preço da mesma fruta – vendida o ano todo – pode ultrapassar U$ 2,00 a unidade. Parte do custo é atribuída ao transporte e estocagem do produto.
País pobre
A economia do Burundi ainda é o principal fator que faz com que o país tenha um baixo índice de emissões de CO2 per capita. Tanto na lista do FMI como do Banco Mundial, o Burundi tem a menor renda per capita nominal do planeta. A renda mensal média de cada burundiano é de pouco mais de US$ 9.
A economia do país já era uma das mais frágeis do mundo no começo dos anos 90, quando estourou a guerra civil no país. O Burundi passou por dez anos de declínio econômico, devido à guerra e a embargos comerciais de outros países da região. Nesse período, a renda per capita anual do Burundi desabou de US$ 180, em 1993, para US$ 110, em 2007, segundo dados do Banco Mundial.
Como resultado, mesmo as famílias com melhor renda no país não têm acesso a bens de consumo, como computadores e máquinas de lavar. É o caso de Willy Rwankineza e Espérance Iradukunda, uma família de classe média visitada pela BBC Brasil (assista ao vídeo).
O consumo de energia – um dos principais responsáveis por emissões de CO2 – também é baixo no Burundi, e boa parte da matriz energética do país é hidrelétrica, que gera pouco gás carbônico. A casa de Willy e Espérance, onde moram outras seis pessoas, consome cerca de 120 kWh mensais e paga menos de US$ 5 de conta de luz.
E mesmo assim, o consumo é limitado, já que não há energia no país para todos e o Burundi passa por uma grave crise energética. A luz é desligada diariamente das 22h às 6pm. A geladeira da família vive vazia e às vezes até desligada, porque não há condições de se estocar alimentos com tantas interrupções de luz.
Nos últimos meses, os apagões têm acontecido com mais frequência e sem aviso prévio. No mês passado, o ministro de Energia do país, Samuel Ndayiragije, foi demitido devido à crise energética no país.
Desmatamento
O terceiro fator que explica porque o Burundi tem uma baixa taxa de emissão de CO2 per capita é que o desmatamento de florestas não é contabilizado pelas estatísticas, o que gera uma certa distorção nos números.
Os dados de emissão de CO2 per capita disponíveis atualmente levam em consideração apenas o consumo total de combustíveis fósseis da população. Mas o desmatamento, que é uma atividade que emite muito CO2, não é calculado, já que em muitos países há poucos dados confiáveis sobre o assunto.
O Brasil sofre da mesma distorção. Cada brasileiro emite, em média, 2 toneladas de metros cúbicos de CO2 por ano, cerca de 40 vezes mais do que uma pessoa no Burundi. No entanto, esse número não leva em conta o desmatamento das florestas brasileiras. Estima-se que até 70% das emissões brasileiras são causadas por desmatamento.
No Burundi, a economia se expande com base na agricultura, gerando muito desmatamento. Estima-se que quase metade das floresta original do país foi desmatada. Além disso, a lenha é uma importante fonte de energia nas casas de muitos burundianos. Na casa de Willy e Espérance, por exemplo, não há fogão a gás ou elétrico. A comida é cozinhada com água esquentada a lenha, que é vendida por ambulantes.
* Confira amanhã uma reportagem sobre as soluções que estão sendo pensadas para os problemas nos Estados Unidos e no Burundi.
Em média, cada americano emite 19,78 toneladas de metro cúbico de CO2 por ano, de acordo com estatísticas da agência americana de energia Energy Information Administration. No Burundi, a emissão per capita anual é de apenas 0,05 toneladas.
Alguns fatores explicam porque o índice de emissões de CO2 é tão baixo no país. Em primeiro lugar, o Burundi ainda é um país essencialmente rural, com baixa atividade industrial. Em segundo lugar, o consumo de bens e comidas no país é baixíssimo, já que o Burundi é um dos países mais pobres do planeta.
O terceiro fator é uma certa distorção nos dados de emissões de CO2, que não levam em conta o desmatamento, um problema cada vez mais comum no país.
País rural
Com população total de 8,7 milhões de pessoas, o Burundi ainda é essencialmente um país rural. Menos de 4% da população total do país vive em Bujumbura, a capital e maior cidade. Apenas 10% das pessoas vivem em meios urbanos, onde estão concentradas as poucas indústrias do país.
A grande maioria dos burundianos vive no campo. Mais de 90% das pessoas vivem da agricultura de subsistência, plantando os alimentos que comem e vendendo o pequeno excedente em mercados e nas ruas. Com exceção de algumas grandes plantações de chá e café no norte do país, que respondem quase que exclusivamente pelas exportações do Burundi, todo o país funciona à base da agricultura de subsistência.
O resultado disso é que os alimentos são baratos e geram pouco CO2 no ambiente. Os agricultores plantam os alimentos para consumo próprio em terras alugadas. O excedente dos alimentos é vendido para o dono da terra, em pequenos mercados de rua ou de porta em porta na capital.
Burundi é o país com a menor renda per capita do mundo
Durante o dia, as ruas de cidades como Bujumbura são tomadas por vendedores ambulantes de alimentos diversos como ovos, bananas e mangas. O transporte do alimento até o consumidor final também é ecológico, já que os ambulantes andam a pé ou de bicicleta.
Também não há emissão de CO2 por estocagem de alimentos em frigoríficos. Os burundianos praticamente só consomem frutas e verduras da estação a preços baixos. Uma manga vendida no outono, por exemplo, custa cerca de US$ 0,20. Nos Estados Unidos, o preço da mesma fruta – vendida o ano todo – pode ultrapassar U$ 2,00 a unidade. Parte do custo é atribuída ao transporte e estocagem do produto.
País pobre
A economia do Burundi ainda é o principal fator que faz com que o país tenha um baixo índice de emissões de CO2 per capita. Tanto na lista do FMI como do Banco Mundial, o Burundi tem a menor renda per capita nominal do planeta. A renda mensal média de cada burundiano é de pouco mais de US$ 9.
A economia do país já era uma das mais frágeis do mundo no começo dos anos 90, quando estourou a guerra civil no país. O Burundi passou por dez anos de declínio econômico, devido à guerra e a embargos comerciais de outros países da região. Nesse período, a renda per capita anual do Burundi desabou de US$ 180, em 1993, para US$ 110, em 2007, segundo dados do Banco Mundial.
Como resultado, mesmo as famílias com melhor renda no país não têm acesso a bens de consumo, como computadores e máquinas de lavar. É o caso de Willy Rwankineza e Espérance Iradukunda, uma família de classe média visitada pela BBC Brasil (assista ao vídeo).
O consumo de energia – um dos principais responsáveis por emissões de CO2 – também é baixo no Burundi, e boa parte da matriz energética do país é hidrelétrica, que gera pouco gás carbônico. A casa de Willy e Espérance, onde moram outras seis pessoas, consome cerca de 120 kWh mensais e paga menos de US$ 5 de conta de luz.
E mesmo assim, o consumo é limitado, já que não há energia no país para todos e o Burundi passa por uma grave crise energética. A luz é desligada diariamente das 22h às 6pm. A geladeira da família vive vazia e às vezes até desligada, porque não há condições de se estocar alimentos com tantas interrupções de luz.
Nos últimos meses, os apagões têm acontecido com mais frequência e sem aviso prévio. No mês passado, o ministro de Energia do país, Samuel Ndayiragije, foi demitido devido à crise energética no país.
Desmatamento
O terceiro fator que explica porque o Burundi tem uma baixa taxa de emissão de CO2 per capita é que o desmatamento de florestas não é contabilizado pelas estatísticas, o que gera uma certa distorção nos números.
Os dados de emissão de CO2 per capita disponíveis atualmente levam em consideração apenas o consumo total de combustíveis fósseis da população. Mas o desmatamento, que é uma atividade que emite muito CO2, não é calculado, já que em muitos países há poucos dados confiáveis sobre o assunto.
O Brasil sofre da mesma distorção. Cada brasileiro emite, em média, 2 toneladas de metros cúbicos de CO2 por ano, cerca de 40 vezes mais do que uma pessoa no Burundi. No entanto, esse número não leva em conta o desmatamento das florestas brasileiras. Estima-se que até 70% das emissões brasileiras são causadas por desmatamento.
No Burundi, a economia se expande com base na agricultura, gerando muito desmatamento. Estima-se que quase metade das floresta original do país foi desmatada. Além disso, a lenha é uma importante fonte de energia nas casas de muitos burundianos. Na casa de Willy e Espérance, por exemplo, não há fogão a gás ou elétrico. A comida é cozinhada com água esquentada a lenha, que é vendida por ambulantes.
* Confira amanhã uma reportagem sobre as soluções que estão sendo pensadas para os problemas nos Estados Unidos e no Burundi.
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