Monday, December 7, 2009

Fontes sobre as Origens da Família Bezerra era Pernambuco, Portugal e Galicia

Este artigo dá sequência ao trabalho pioneiro de Vinícius Bar-
ros Leal, "Os Bezerra de Menezes: Origens", Fortaleza, edição do
autor, 1979. Outro crédito especial é dado a Luís Edgar de Andrade,
por suas recentes pesquisas em Portugal, facultando o acesso à obra
de Filgueiras Gaio, adiante referida. Comporta, ainda, uma home-
nagem aos estudiosos da família no Ceará, em especial António Be-
zerra de Menezes, o historiador, fundador do instituto, e suas filhas
Geórgia e Maria José; Antonio Theophilo Bezerra de Menezes e os
irmãos Murilo e Walder Bezerra de Sá, seus netos; D. Pompeu Be-
zerra Bessa, Raimundo Teles Pinheiro, Fernando Câmara, Francis-
co de Assis Arruda Furtado e o mestre maior da genealogia cearense,
Raimundo Girão. A lista de homenageados se completa com os dois
primeiros nomeados, Vinícius Barros Leal e Luís Edgar de Andrade.
O escopo do trabalho é sistematizar as informações contidas
nas fontes documentais e bibliográficas pesquisadas pelo autor. A
partir das referências indicadas, outros pesquisadores terão faci-
litados os seus estudos, seja no sentido de ampliar a compreensão
das origens da família, seja na correção de erros eventualmente
cometidos.
A base documental primária mais antiga que se tem de um
Bezerra em solo brasileiro é um depoimento prestado na vila de
Olinda, em 16 de maio de 1594, perante o Licenciado Heitor Furtado
de Mendonça, Visitador do Santo Ofício. O depoente apresentou-se à
Inquisição para denunciar um caso de blasfémia.
Ao iniciar seu depoimento, assim se qualificou:
"Domingos Bezerra... disse ser christão velho natural de Viana
foz de Lima filho de Antonio Martins da Boda e de sua mulher Maria
Martins Bezerra gente nobre defunctos de ydade de sessenta e oyto
annos, casado com Brazia Monteiro dos da governança desta terra e
que disse ser fidalgo de geração morador na sua fazenda da Várzea
freguesia de Nossa Senhora do Rosário..." (Mendonça, 1929: 271).
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Rpvista do Insl.il.ulo do Ceará - ¡994
No dia 1 de junho de 1594 foi chamada para depor, como teste-
munha de outro caso, a esposa de Domingos Bezerra. Ela se qualifi-
cou nos termos seguintes:
"Brazia Monteiro... disse ser christãa velha, natural desta Ca-
pitania casada com Domingos Bezerra dos da governança della, de
ydade de quarenta annos pouco mais ou menos moradora na sua fa-
zenda da Várzea" (Mendonça, 1929: 281).
O original manuscrito da Visitação do Santo Ofício às Partes
do Brasil permaneceu guardado na Torre do Tombo, em Lisboa, do
século XVI ao século XX. O grande historiador brasileiro Capistrano
de Abreu, cearense, obteve do historiador português J. Lúcio de Aze-
vedo, seu amigo pessoal, a intermediação necessária para obter có-
pia do documento. Antonio Baião, na época Diretor daquele princi-
pal arquivo português, reviu pessoalmente a cópia. Paulo Prado, tam-
bém amigo de Capistrano, patrocinou a publicação em São Paulo
(Mendonça, 1929: XXXIII).
O mesmo Domingos Bezerra aparece mencionado em outros
depoimentos de denunciantes ou de testemunhas, acerca de di-
versos eventos inquiridos pelo Visitador. Repetidas vezes ele é
designado pelo nome Domingos Bezerra o Velho (Mendonça, 1929:
77; 84; 273; 285). Sendo assim, deveria haver um segundo Domin-
gos, mais novo.
Em 1675, um filho deste e neto do primeiro ingressou na Ir-
mandade da Santa Casa de Misericórdia da Cidade de Olinda. O
assentamento à fi. 13 do livro de posse está assim redigido:
"Aos 27 de Janeiro de 1675 se assignou por irmão com termo
Cosme Bezerra Monteiro natural de Pernambuco, filho legitimo de
Domingos Bezerra de Barbuda e de Antonia Rodrigues Delgado; neto
por parte paterna de Domingos Bezerra de Barbuda e de Brazia
Monteiro, e por parte materna de Cosme Rodrigues e de Simoa da
Rosa; e casado com D. Leonarda Cavalcanti, filha de Antonio Caval-
cante de Albuquerque e de D. Margarida de Souza, todos desta terra"
(RlACP. 1866: 313).
O ingresso de irmãos na antiga Irmandade da Misericórdia de
Olinda foi objeto da palestra proferida pelo Major Salvador Henrique
de Albuquerque, 2o Secretário do Instituto Archeologico e Geographico
Pernambucano, na 48a sessão ordinária, realizada em 3 de agosto de
1865. A ata da sessão, publicada na Revista do Instituto, não repro-
duz o texto da palestra, mas transcreve 17 termos assinados por
novos irmãos, entre os quais o de Cosme Bezerra Monteiro.
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Fontes sobre as origens da Família Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
Os dados apresentados, procedentes de fontes primárias, ajudam
a entender melhor e a corrigir detalhes da "Nobiliarchia Pernambucana",
de Antonio José Victoriano Borges da Fonseca (1718-1786) (Fonseca,
1935). Esta constitui a mais extensa documentação genealógica organi-
zada no Nordeste colonial. Os manuscritos originais, compondo quatro
volumes, estiveram sob a guarda do Mosteiro de São Bento de Olinda
por mais de vim século. O exame do texto permite deduzir que o autor o
redigiu de 1748 a 1781, com eventuais interrupções. Há evidências de
adições posteriores, sem ser possível datá-las com exatidão. A pedido
do Barão de Studart, foi feita uma cópia em fins de 1891 e inicio de
1892. A publicação só veio a ocorrer em 1935, pela Biblioteca Nacional,
em dois volumes (Mello: 148-152; 161-163).
As quatro primeiras gerações de Bezerra, referidas nas fontes
primárias citadas, encontram-se na Nobiliarchia, com algumas alte-
rações nos nomes, porém com as identidades bem caracterizadas. E
importante observar as coincidências e diferenças, a serem objeto de
análise posterior. No Título de Bezerra Felpa de Barbuda consta:
"'1 A família de Bezerra Felpa de Barbuda é das mais ricas de
Pernambuco e nelle consta os mesmos annos que a sua po-
voação, porque procede de Antonio Bezerra Felpa de Bar-
buda, natural de Ponte de Lima, e de sua mulher Maria de
Araújo, que vieram a dita Capitania com o primeiro
donatário. Délies foi filho:
2 Domingos Bezerra Felpa de Barbuda, que do Livro Velho
da Sé consta que fallecerá a 18 de Outubro de 1607 e que
fora sepultado na dita igreja. Foi casado com Brazia
Monteiro, que do mesmo livro consta que havia fallecido a
12 de Outubro de 1606. Esta Brazia Monteiro foi filha de
Pantaleão Monteiro, primeiro Senhor do Engenho de S.
Pantaleão da Várzea do Capibaribe, a que ainda hoje cha-
mam engenho do Monteiro e de sua mulher Brazia Monteiro.
Nasceram desse matrimonio:
3 Domingos Bezerra Felpa de Barbuda, adeante" (Fonskca,
1935:1: 35).
"3 Domingos Bezerra Felpa de Barbuda casou com Antónia
Rodrigues Delgado, filha de Cosme Rodrigues e de sua mu-
lher Simôa da Rosa e foram seus filhos:
4 Cosme Bezerra Monteiro, que continua.
4 Simôa Bezerra, adeante".
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lievistti do Instituto do Ceará - 1991 ___
"4 Cosme Bezerra Monteiro, que ainda vivia em 1763 (sic) [erro
de cópia], como se vê do termo de Irmão da Misericórdia,
que assignou a 27 de Janeiro do dito anno; foi casado, como
consta do dito termo, com D. Leonarda Cavalcante de
Albuquerque, filha de Antonio Cavalcante d'Albuquerque,
o da guerra e de sua mulher D. Margarida de Sousa, em
título de Cerqueiras Cavalcante" (Fonseca: 1: 39).
De Simoa Bezerra, irmã de Cosme Bezerra Monteiro, proce-
dem os Bezerra de Menezes cearenses. Foi casada com Bento
Rodrigues da Costa, filho de Manoel Rodrigues e Mana Simões. Simoa
e Bento foram pais de Bento Rodrigues Bezerra, pernambucano, que
casou com Petronila Velho de Menezes, baiana, dando origem ao
sobrenome Bezerra de Menezes adotado pelas gerações seguintes
Dos filhos de Bento e Petronila quatro tornaram-se troncos da famí-
lia no Ceará: João Bezerra Monteiro (os descendentes deram prefe-
rência ao Bezerra de Menezes), no Cariri; Francisco e Jerónimo Be
zerra de Menezes, nos vales do Acaraú e do Aracatiaçu; Joana Be
zerra de Menezes, no vale do Jaguaribe, em particular o Riacho do
Sangue.
Para se conhecer as gerações de Portugal e da Galicia, a pri-
meira fonte é uma certidão obtida em Lisboa pelo Capitão Amaro
Bezerra. Declarando-se natural do Rio de S. Francisco, Capitania de
Pernambuco, requereu que se lhe passasse uma certidão de brasão
de armas, fidalguia e nobreza. A certidão foi feita por Joseph da Cruz
Paulino e subscrita por Joseph Duarte Colusedo, escrivão da nobre-
za, datada em 10 de julho de 1718. Dez anos depois* em 4 de novem-
bro de 1728, o Tenente Coronel Francisco Alves Camello requereu
ao Tabelião da Villa do Penedo, Rio de S. Francisco. Comarca de
Alagoas, Capitania de Pernambuco, o traslado desse documento.
Borges da Fonseca o transcreveu na íntegra na sua Nobiharchia
Pernambucana (Fonseca: II: 345-347) e por essa forma o seu conteú-
do foi preservado.
Fundamental, para a matéria em exame, é o trecho onde se
alinham os nomes dos antepassados galegos e portugueses dos Be-
zerra de Pernambuco. A ordem é inversa da comum, ou seja, segue
de filho para pai, avô, bisavô e demais gerações em linha ascenden-
te. O teor da certidão, nesse particular, está assim redigido:
"... e todos são descendentes de Martim Bezerra, Fidalgo do Rei-
no da Galisa, que por uma morte que fez passou a Portugal, consta
ser filho de Rodrigo Fernandes Bezerra, neto de Lopo Bezerra, bisne-
to de Fernão Bezerra de Moscoso, terceiro neto de Lopo Bezerra de
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Fontes sobre as origens da Familia Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
Muscoso, irmão de D. João Fernandes de Andeiro que foi conde de
Orem neste reino e governou como valido e primeiro ministro dos
Senhores reis D. Fernando e D. Leonor Telles. Quinto (sic) [quarto]
neto de Martim Bezerra de Moscoso. irmão de D. Nuno de Moscoso,
Arcebispo de Santiago g de D. Affonso de Moscoso. bispo de
Mondonhedo; quinto neto de Fernão Bezerra e de sua mulher D. Mai-
or Fernz. [Fernandes] de Moscoso, filha de Lopo Pires de Moscoso, de
quem procede a casa dos Condes de Altamira, grandes de Hespanha,
que é uma das principais daquella monarchia e é a família dos Bezer-
ras muito antiga e della fala o Conde D. Pedro de Barcellos. filho de
El-rei D. Deniz no seu Nobiliário, dos quais todos descendia elle
Supplicante e que sempre se trataram á lei de nobreza, sempre nelles
não houve raça de infesta nação" (Fonseca: II: 346).
O ''Nobiliário das Famílias de Portugal", de Manuel José da
Costa Fììgueiras Gaio (1750-1831) (Gaio, s.d.) apresenta um
referencial para cotejar os dados da certidão passada ao Capitão
Amaro Bezerra. Os registros se iniciam mencionando os ancestrais
mais recuados que o autor pôde identificar. Prossegue em linha des-
cendente, até encontrar a quarta geração da família no Brasil e ge-
rações contemporâneas em Portugal. Por serem numerosas as gera-
ções, os detalhes e as palavras abrevadas, seria longa uma transcri-
ção completa. Apresenta-se, apenas, a linhagem que chega a Cosme
Bezerra Monteiro. Recompondo as palavras abreviadas, mas respei-
tando a redação do autor, a síntese da sucessão assim se configura:
1. João Bezerra houve de D. Maria Rodrigues Codorniz filha
de Rodrigo Fernandes (Ruy, abreviado, no original)
Gonçallo Gomes Bezerra o Sordo.
Destes poderia passar algum a Castelã, e de lá tornarem a
passar a Portugal.
João Bezerra a que outros chamão Gonçallo Annes Bezerra
não sabemos de quem era filho cazou com D. Maria
Rodrigues Codorniz filha de Rodrigo Fernandes Codorniz.
Gonçallo Gomes Bezerra o Surdo
Gonçallo Gomes Bezerra filho de João Bezerra cazou com
(o Conde D. Pedro não trata dos ascendentes deste Gonçallo
Gonçalves Bezerra nem do seu Irmão Soeiro Gonçalves
Bezerra).
Gonçallo Gonçalves Bezerra
Soeiro Gonçalves Bezerra
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iuta do Instituto do Ceará - 1991
3. Soeiro Gonçalves Bezerra filho de Gonçallo Gomes diz o
Conde D. Pedro foi de mãos feitos e que seus filhos forão o
mesmo como elle e entregarão Castellos que tinhão na Bei-
ra sendo traidores, entregando-os ao Conde de Bolonha D.
Affonso quando veio por Governador não diz mais o Conde
D. Pedro mas nos dizem ter Fernão Bezerra" (Gaio, s.d.:
VII: 28).
"4. Fernão Bezerra filho de Soeiro Gonçalves Bezerra cazou
em Galiza e talvez lá se estabelese-se por ser traidor neste
Reino onde casou com D. Mayor Fernandes de Moscozo fi-
lha de Lopo Pires de Moscozo
D. Nuno de Moscozo Arcebispo de S. Thiago
D. Affonso Bispo de Mondonhedo
Martim Bezerra de Moscozo
5. Martim Bezerra de Moscozo filho de Fernão Bezerra cazou
com ... do Campo
Lopo Bezerra de Moscozo
D. Mayor Bezerra mulher de Fernão Sanchez de Moscozo
6. Lopo Bezerra de Moscozo filho de Martim Bezerra de
Moscozo não se nos diz se cazara só que teve Fernão Lopes
Bezerra
7. Fernão Lopes Bezerra filho de Lopo Bezerra igualmente se
não diz mais que teve Lopo Fernandes Bezerra
8. Lopo Fernandes Bezerra filho de Fernão Lopes igualmente
se nos não diz mais que teve Rodrigo a que outros chamão
D. Affonso Bezerra
9. Rodrigo Bezerra, ou D. Affonso Bezerra como dizem outro
filho de Lopo Fernandes Bezerra teve de Violante Moscozo
Martim Bezerra
10. Martim Bezerra filho de Rodrigo ou D. Affonso Bezerra.
Cazou com...
11. Antonio Pires Bezerra adiante no... que não seguimos que
teve segundo o Nobeliario de Turis
12. Domingos Nunes Bezerra (Gaio: VII: 29).
(3) Outros fazem estes filhos de Pedro Nunes a saber Fernão
Bezerra, Domingos Bezerra e D. Mecia Gonçalves filhos de
Antonio Pires Bezerra e netos de Martim Bezerra no prin-
cipio deste título o que não seguimos (Gaio: VII: 30).
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Fontes sobre as origens da Família Bezerra em Pernambuco. Portugal e Galicia
4. Domingos Bezerra filho de Pedro Nunes Bezerra que pas-
sou ao Brazil (Domingos Bezerra no Nobeliario de Turis se
diz filho de Antonio Pires Bezerra e neto de Martim Bezer-
ra) cazou com D. Brazia Monteiro filha de... Monteiro de
Monte Mor o velho) (Gaio: VII: 31).
5. Domingos Bezerra Monteiro filho de Domingos Bezerra
cazou com D. Antonia Rodrigues Delgado
6. Cosme Bezerra Monteiro
6. Cosme Bezerra Monteiro filho de Domingos Bezerra cazou
no Brazil com D. Bernardo [evidente erro de composição]
(Leonarda) Cavalcante filha de Antonio Cavalcante Mestre
de Campo e Governador no levantamento de Pernambuco...
(Gaio: VII: 32).
É importante notar que Felgueiras Gaio admite ser Pedro Nunes"
Bezerra o nome do pai de Domingos Bezerra, e não Antonio Pires
(sic) Bezerra. No entanto, registra a alternativa que ele rejeita e
indica a fonte. A alternativa por que optou não foi a correta. Não
obstante, o propósito de ser fiel às pesquisas que empreendeu o le-
vou a registrar a segunda alternativa, que se revela mais próxima
das fontes documentais primárias conhecidas e das fontes secundá-
rias preservadas no Brasil. Com efeito, salvo os detalhes de nomes, o
mencionado "Nobeliario de Turis" indica a sequência correta de ge-
ração entre Domingos, seu pai António e seu avô Martim Bezerra.
Por conseguinte, dispõe-se de outra fonte para cotejar a sequência
de gerações inserida na certidão passada em 1718 ao Capitão Amaro
Bezerra (Fonseca: II: 346).
Ouso levantar a hipótese de que o 'Tires" de Antonio Bezerra
foi erro de leitura paleogràfica. Poderá ter sido cometido pelo autor
da fonte consultada por Felgueiras Gaio, ou por ele próprio no ma-
nuscrito da sua obra. Consoante a formação de nomes em Portugal,
na época, o mais correto é que Antonio filho de Martim Bezerra vies-
se a se chamar Antonio Martins Bezerra.
Sobre Lopo Pires de Moscozo e Martim Bezerra de Moscozo,
referidos nos números-4 e 5 da lista de Felgueiras Gaio, o historia-
dor galego Vasco de Aponte faz menção a ambos, nomeando-os Lope
Pérez de Moscoso e Martin Bezerra de Canees (Aponte, 1986: 171),
citando sua fonte consultada, López Ferreiro, História, VII, 124, esta,
todavia, não disponível. Sobre a esposa de Martin, que aparece refe-
rida simplesmente "... do Campo", outro historiador galego, Garcia
Oro, registra que a família Moscoso se enlaçou com os burgueses
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Heriala do Instituto do Ceará - 199!
compostelanoe Do Campo (Garcia Oro, 1987:116: 265; 268-269). Per-
manece desconhecido o nome da esposa de Martin, mas fica
identificada a sua origem.
Nomes e eventos citados na certidão passada ao Capitão Amaro
Bezerra e no trabalho de Felgueiras Gaio são referendados em docu-
mentos antigos.
O "Livro do Deão", que forma uma das partes dos "Livros Ve-
lhos de Linhagens", escrito no século XIV, faz referência ao Bezerra
mais recuado da listagem de Felgueiras Gaio e às circunstâncias do
nascimento do filho:
"E o sobredito dom Rodrigo Fernandes Codorniz, irmão de dom
João Fernandes Batissela. foi casado com uma dona e fege nela
dona Maria Rodrigues Codorniz
E esta dona Maria Codorniz rouçou-a João Bezerra de casa de
dom Rodrigo Gomes, e fege nela Gonçalo Gomes, o Gordo" {PMH.
1980a: 206-207).
Pesquisador das famílias medievais portuguesas, o historiador
José Mattoso (Mattoso. 1985) levantou a ascendência de D. Rodrigo
Fernandes, o Codorniz. Foi filho de D. Fernando Aires de Lima, em
outros documentos D. Fernão Aires d'Anho Batissela, e de D. Teresa
Bermudes de Trava. Esta, filha de D. Bermudo Peres de Trava e de
D. Urraca Henriques de Portugal. D. Bermudo foi filho de D. Pedro
Peres de Trava e D. Teresa, irmã de D. Afonso Henriques, primeiro
rei de Portugal, filha do conde D. Henrique de Borgonha e de D.
Teresa de Leão e Castelã.
É importante observar que tanto em Felgueiras Gaio, como no
Livro do Deão e outras fontes antigas, os nomes aparecem com fre-
quência em forma abreviada, a exemplo de Ruy, Rui ou Roi para
Rodrigo, Frz para Fernandes etc. Nestes casos, as formas abrevia-
das foram colocadas na sua forma extensa, atual.
Anterior ao livro precedente, o "Livro de Linhagens" do Conde
D. Pedro de Barcelos (1280-1354), inclui um registro explícito à con-
duta reprovável de Soeiro Gonçalves Bezerra e seus filhos:
"E este Sueiro Bezerra houve filhos tam mãos como ele e tam
mãos feitos foram treedores. também o padre como os filhos, ca derom
peça de castelos na Beira, que tinham dei rei Dom Sancho, a que
haviam feita menagem por eles e deram-nos ao conde dom Afonso de
Bolonha, quando vinha por governador do regno per mandado do Papa"
(PMH, 1980b: II/2: 147).
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Fontes sobre as origens da Familia Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
Através da literatura trovadoresca contemporânea do evento,
que ocorreu por volta de 1247, identifica-se que Soeiro Bezerra en-
tregou o castelo de Monsanto e seu filho Rodrigo Bezerra (Roi, abre-
viado, na cantiga) o castelo de Trancoso. Trata-se de uma cantiga de
escárnio e mal dizer da autoria de Airas Peres Vuiturom, que se
acha no Cancioneiro da Biblioteca Nacional, N° 1478, e no Cancio-
neiro da Vaticana, N° 1088- Ambos, D. Pedro e Airas Peres, referem-
se a filhos, no plural. Quais os seus nomes e os respectivos castelos
de que eram alcaides, não há registro. Identifica-se apenas os dois
castelos anteriormente relacionados. Os versos que mencionam os
Bezerra são os seis primeiros e outros quatro no meio:
A lealdade dos Bezerra, que pela Beira muito anda;
bem habetur qu'antradenhamos; pois quando Papa manda
Nom tem Soeiro Bezerra que terr'é em vender Monsanto,
ca diz que nunca Deus diss[e] a Sam Pedro mais de tanto:
- Que tu legares em terra erit ligatum in celo.
Porém diz ca nom é torto de vender outro castelo!
Ofereceu Trancos[o] ao conde Roi Bezerro:
falou entom dom Soeiro, por sacar seu filho d'erro:
- Nom potest filius meus sine patre sue faceré quidquam,
Salvos som os traidores, pois bem isopados ficam.
(CP, 1961:67-69)
Um detalhe interessante no documento de 1718 é que Joseph
Duarte Colusedo, escrivão da nobreza, ao mandar Joseph da Cruz
Paulino fazer a certidão a ser passada ao Capitão Amaro Bezerra
seguramente orientou o escriturário para que parasse na geração
imediatamente anterior a Soeiro Gonçalves Bezerra. Não ficaria bem
para o destinatário dispor de um documento que por um lado o
nobilita, mas que por outro o faz descender de um traidor da pátria.
Ainda em relação ao mesmo documento cabe uma retificação.
O texto, ao referir-se a Lopo Bezerra de Moscoso, qualifica-o como
irmão de João Fernandes de Andeiro, Conde de Ourem. As evidênci-
as indicam que Lopo Bezerra foi cunhado da mulher de João
Fernandes de Andeiro. A Crónica do Rei Dom Fernando, de Fernão
Lopes, escrita no século XV, contém uma passagem com a seguinte
informação:
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Rci-ista do Instituto do Ceará - 199-1 ____
"Omde sabee, que Joham Fernamdez vivemdo na Crunha,
morreo Femara Bezerra, huum cavalleiro muito honrado de Galliza;
e sua raolher, a que ficara huum filho que chamavom Joham Bezerra,
casou com este Joham Fernamdez, que chamavom Damdeiro, posto
que não fosse igual pera casar com ella; e houve Joham Ferandez
della quatro filhas, e huum filho: ... Sua molher do comde avja nome
Dona Mayor, molher de prol, e de boom corpo" (Lopes, s.d.: 373-374).
No século XVI Duarte Nunes de Leão também escreveu uma
Crònica dos Reis de Portugal e ao tratar do reinado de D. Fernando,
assim se refere quanto ao casamento de João Fernandes de Andeiro:
'"Este homem (como staa dito atrás) era Gallego. & casou em
Galliza com huma Dona mui honrada, & de melhor sangue que elle,
que fora molhei1 de hum Fernão Bezerra, fidalgo principal, de que
loam Fernandez houue hum filho & quatro filhas" (Lkão, 1975: 384).
Pela configuração dos nomes, foram irmãos Fernão e Lopo Be-
zerra. Não há lógica em terem sido irmãos Lopo Bezerra e João
Fernandes de Andeiro. Presumivelmente, após o segundo casamen-
to da cunhada, a lógica aponta no sentido de que Lopo Bezerra a
tenha acompanhado a Portugal, mantendo relacionamento com João
Fernandes de Andeiro, protegido do rei D. Fernando e da rainha D.
Leonor. Somente assim se entende que a pessoa de João Fernandes
tenha sido associada à de Lopo e que a descendência deste tenha
vindo a fazer parte de um nobiliário português.
Para entender os fundamentos da declaração de Domingos Be-
zerra ao Visitador do Santo Ofício é essencial ter em conta que a
inclusão das duas primeiras gerações de Bezerra nos "Livros Velhos
de Linhagens" e das três primeiras no "Livro de Linhagens do Conde
D. Pedro" representam reconhecimento de origem nobre. Ademais, o
fato de Soeiro Gonçalves Bezerra ter sido alcaide de um castelo e de
outros filhos seus terem ocupado idênticas funções, dá suporte à evi-
dência indicada pelos citados hvros. Três gerações após, os registros
de Fernão Lopes e Duarte Nunes de Leão apontam no mesmo senti-
do. Não significa, entretanto, que fossem da alta nobreza. José
Mattoso, já citado, faz referência a linhagens secundárias e entre
estas inclui a família Bezerra (Mattoso, 1981: 298).
Em resumo, as gerações que partem da Galicia até alcançar as
duas primeiras de Bezerra em Pernambuco, podem ser esquema-
tizadas como adiante se apresenta:
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Fontes sobre as origens da Familia Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
D. Pedro Peres de Trava D. Henrique de Borgonha
c.c. D. Teresa de Leão e Castelã
pai de pais de
D. Berraudo Peres de Trava c.c. D. Urraca Henriques de
Portugal
pais de
D.Teresa Bermudes de Trava c.c. D. Fernão Aires d'Anno
Batissela
pais de
D. Rodrigo Fernandes, o Codorniz
pai de
João Bezerra e D. Maria Rodrigues Codorniz
pais de
Gonçalo Gomes Bezerra
pai de
Soeiro Gonçalves Bezerra
pai de
Fernão Bezerra
Lopo Peres de Moscoso
c.c. D. Mayor Fernandes de
Moscoso
pais de
9 Martin Bezerra de Moscoso
pai de
10 Lopo Bezerra de Moscoso
pai de
11 Fernão Lopes Bezerra
pai de
12 Lopo Fernandes Bezerra
pai de
13 Rodrigo Bezerra
pai de
14 Martini Bezerra e
pais de
Antonio Pires [Martins] Bezerra
15 = Antonio Martins de Barbuda
c.c. Maria Martins Bezerra
pais de
16 Domigos Bezerra de Barbuda
Por conseguinte, ao declarar em Olinda, no ano de 1594, pe-
rante o Visitador do Santo Ofício, Heitor Furtado de Mendonça,
que era fidalgo de geração, Domingos Bezerra afirmou o que reco-
nhecia como fato. Ele tinha consciência dos laços que o ligavam
aos antepassados.
Violante de Moscoso
Pantaleão Monteiro
c.c. Brasia Monteiro
pais de
c.c. Brasia Monteiro
119
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Reí-isla do Instituto do Cearei - 199-1
Para alcançar os troncos no Ceará, as gerações subsequentes,
partindo de Domingos e sua mulher, são:
16 Domingos Bezerra de Barbuda c.c. Brasia Monteiro
Cosme Rodrigues ce. Simoa da Rosa
pais de pais de
17 Domingos Bezerra de Barbuda ce. Antonia Rodrigues
Delgado
pais de
18 Cosme Bezerra Monteiro c.c. Leonarda Cavalcanti
18 e Simoa Bezerra c.c. Bento Rodrigues da Costa
Simoa e Bento pais de
19 Bento Rodrigues Bezerra c.c. Petronila Velho de Menezes
pais de
20 João Bezerra Monteiro Jerónimo Bezerra de Menezes
20 Francisco Bezerra de Menezes Joana Bezerra de Menezes
Concluindo: somando-se as 11 gerações de Bezerra de Menezes
no Ceará às 20 pesquisadas, são 31 no total. Marcam suas presenças
em 9 séculos de história, do século XI ao século XX.
Fontes Bibliográficas
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de Galicia. Santiago de Compostela, Xunta de Galicia, Conselleria
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CP. 1961. Clássicos Portugueses, Cantigas de Escárnio e Maldizer
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Gaio, Manuel José da Costa Felgueiras, s.d. Nobiliário das Famílias
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mão Editores.
Lopes, Fernão, s.d. Crónica do Senhor Rei Dom Fernando Nono Rei
Destes Regnos. Porto, Livraria Civilização Editora.
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Fontes sobre as origens da Família Bezerra em Pernambuco, Portugal e Galicia
M Airoso, José- 1981. A Nobreza Medieval Portuguesa: a família e o
poder. Lisboa, Editorial Estampa.
Mattoso, José. 1985. Ricos Homens, Infanções e Cavaleiros: a nobre-
za medieval portuguesa nos séculos XI e XII. Lisboa, Guimarães
Editores.
Mello, José Antonio Gonsalves de. 1986. A Nobiliarchia Pernam-
bucana, in Estudos Pernambucanos, 147-194. Recife, Governo de
Pernambuco, Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes/
FUNDARPE.
Mendonça, Heitor Furtado de. 1929. Primeira. Visitação do Santo
Ofício às Partes do Brasil Pelo licenciado Heitor Furtado de Men-
donça - Denunciações de Pernambuco 1593-1595. São Paulo, Sé-
rie Eduardo Prado, Para Melhor Conhecer o Brasil, Homenagem
de Paulo Prado.
PMH. 1980a. Portugaliae Monumenta Histórica, Livro do Deão, in
Livros Velhos de Linhagens. Lisboa, Publicações do II Centenário
da Academia das Ciências.
PMH. 1980b. Portugaliae Monumenta Histórica, Livro de Linhagens
do Conde D. Pedro. Lisboa, Publicações do II Centenário da Aca-
demia das Ciências.
RLAGP. 1866. Revista do Instituto Archeologico e Geographico Per-
nambucano. Recife.

13 comments:

  1. Eu sou filho de uma pessoa que tem o sobrenome Bezerra, mas não sei se faz parte de sua Familia, minha mãe é Maria Matias Bezerra, filha de Gonçalo Matias Bezerra, nasceu em "Flores", hoje Florania-RN, meu avô era da Região entre Jucurutu e Florania. Hoje meu só tenho um tio que conheço, Severino Matias Bezerra, pois os outros, inclusive minha mãe ja faleceram. Eu nunca tive contato com a descendencia de minha mãe....

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  2. Minha Familia é provida do sobrenome, também não sei se pertencemos a tal. Porém meu Tataravó : Moyses Bezerra de Castro que junto de suas Mulher Sebastiana Puga de Castro e filhos [meu Bisavó: José Bezerra de Castro é de Fortaleza CE] e veio para o Norte de Goiás (Atual Tocantins) aqui construiu família e teve proeza, hoje jás facelido juntamente com sua Esposa Itelvina Bezerra Machado.
    Meu Pai Deuzimar Bezerra de Castro Machado contou-me um fato ocorrido no Nordeste á muitos tempo atras que Seu Tataravo Pai de Moyses Bezeera de Castro havia matado Lâmpeão. Enfim, não sei se o fato é concreto. OBS: Ele fazia parte da "Policia" naquela época, era respeitado, é foi morto brutalmente pelos os capangas de Lâmpeão como uma forma de vingança.
    Entretanto, creio eu que foras este o motivo de meus antepassados saírem de sua terra natal (Fortaleza- CE).

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  3. Excelente! Há muitos descendentes de Joana Bezerra de Menezes no Vale do Jaguaribe. No meu caso, sou descendente (hexaneto) de José Jacó de Freitas que se casou com a russana Ana Clara de Sousa. Esta última filha de um José Ferreira Colaço que era filho de Tereza Maria de Jesus, uma filha de Joana Bezerra de Menezes. Há muitas dúvidas e incertezas sobre quem seria o pai de Domingos Bezerra Felpa de Barbuda... por isso agradeço a opinião fundamentada do Blog. De qualquer forma, muito interessante nossa ligação com D. Teresa de Leão e com D. Henrique de Borgonha, que eram os pais do primeiro rei português e que nos liga a algumas das principais dinastias europeias. Obrigado!

    Pedro Alves (Limoeiro do Norte-CE)

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  4. Sou Djean Bezerra de Menezes, filhos de Djalma Bezerra de Menezes e neto de José Bezerra de Menezes.

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  5. Sou Djean Bezerra de Menezes, filhos de Djalma Bezerra de Menezes e neto de José Bezerra de Menezes.

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  6. Sou Djean Bezerra de Menezes, filhos de Djalma Bezerra de Menezes e neto de José Bezerra de Menezes.

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  7. Bom dia!
    Estou criando minha árvore genealógica meu nome é Rosinete Bezerra do Vale, meu pai é Francisco Bezerra do Vale Filho e minha mãe é Maria Sampaio do Vale, somos do interior de Boa Viagem - CE (um povoado chamado de Ramadinha).
    Não sei se somos da mesma família, mais estou em busca da minha 6° geração em diante.

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  8. Bom dia!
    Estou criando minha árvore genealógica meu nome é Rosinete Bezerra do Vale, meu pai é Francisco Bezerra do Vale Filho e minha mãe é Maria Sampaio do Vale, somos do interior de Boa Viagem - CE (um povoado chamado de Ramadinha).
    Não sei se somos da mesma família, mais estou em busca da minha 6° geração em diante.

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  9. Boa tarde muito interessante a história da família Bezerra , eu sou neto de Raimundo Bezerra de Menezes com Elza Moreira leite minha Vó é do Crato meu avô e nao sei dizer agora meu pai é José Jeferson Bezerra de Menezes casado com Elisabete bezerra campos, eu sou Thomaz Jefferson Bezerra de Menezes.

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  10. Boa tarde muito interessante a história da família Bezerra , eu sou neto de Raimundo Bezerra de Menezes com Elza Moreira leite minha Vó é do Crato meu avô e nao sei dizer agora meu pai é José Jeferson Bezerra de Menezes casado com Elisabete bezerra campos, eu sou Thomaz Jefferson Bezerra de Menezes.

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  11. Muito interessante, eu sou filho de Francisco Bezerra da silva- que era natural de belo jardim Pernambuco- meu nome é Isaak Bezerra da Silva- estou no face book-

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  12. Estou pesquisando os ascendentes de Azarias Barbosa de Lima casado com Joana Barbosa Bezerra de Lima, pais de Manoel Barbosa de Lima, casado em União dos Palmares-Al em 10/02/1915 com Clélia de Almeida Lima,filha do Cap. Antônio Evaristo Alves de Lima e Eufrásia Correia de Almeida, alguns de União dos Palmares-Al e outros cidades do Estado de Alagoas.

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  13. digo, ... e outros de algumas cidades do Estado de Alagoas.

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